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Consumo sensível à pandemia: alimentação, saúde e crise

foto: Marcel Carneiro 

 

Parafraseando Renato Maluf e colaboradoras com a “agricultura sensível à nutrição”*1 , chamo a sua atenção para a presente crise.

 

A pandemia que nos assombra nesse momento veio para jogar luz sobre uma crise sistêmica que assola a sociedade há algumas décadas, e que se torna neste momento amplamente visível. A enorme complexidade do tema não permite focos estreitos. Desigualdade social e concentração de renda, financeirização da economia (os alimentos viram “mercadoria”), desmonte de aparatos e instituições públicas, precarização do trabalho, subemprego, concentração de terras e expulsão de comunidades ancestralmente ocupantes; e as questões ambientais: altíssimas emissões de carbono, perda da biodiversidade (já se fala em nova extinção em massa) e serviços ambientais correspondentes, contaminação da água, do ar e do solo, desertificações, epidemias e pandemias, e por aí vai.

 

Resumidamente, estamos diante da perda do valor da vida e da supervalorização do capital. Uma inversão de valores que parece ter chegado ao limite de produzir um vírus para chacoalhar toda essa mistura, que por si só já estava prestes a explodir.

 

Tudo parece chamar à necessidade de mudança, mas esta certamente só virá quando a sociedade se determinar e se preparar para tanto. Transformações, por mais necessárias que se mostrem, envolvem perdas, mudanças de hábitos. A crise exposta e amplificada pelo novo Coronavirus, no tocante à alimentação, está mostrando que para ter saúde é preciso comer bem. E comer bem significa uma alimentação com um mínimo de produtos industrializados, baseada em alimentos frescos; o que por si só não basta. Precisamos encarar que a realidade é mais complexa que isso: precisamos deixar os produtos cultivados com agrotóxico e reduzir drasticamente as carnes.

 

 

 fotos: Marcel Carneiro

 

Os agrotóxicos já sabemos que matam: quem come, quem usa (e aqui estão os trabalhadores rurais historicamente esquecidos), a vida dos solos, as águas, a biodiversidade ao redor. A maioria destes venenos tem atuação sistêmica, ou seja, penetra no alimento, não sendo suficientes as lavagens, por melhor que sejam.

 

Com relação à carne, especialistas informam que os grandes rebanhos e a redução das áreas de florestas para dar lugar às monoculturas que os alimentam, contribuíram para que o vírus saísse de seu habitat, nos corpos de animais silvestres que buscam comida junto a esses rebanhos. Aí derramam urinas e fezes, em um ambiente bastante propício à proliferação dos vírus que carregam: milhares de indivíduos, uniformidade genética, baixa imunidade em função do stress de confinamento, alimentação artificializada carregada de antibióticos que mantém a saúde desses animais artificialmente (Altieri e Nichols, 2020; Abromavay, 2020)*2 . Dessa forma, nesse propício ambiente, os vírus se espalham, sofrem mutações e se tornam capazes de contaminar humanos.

 

Sim, nossa alimentação hoje é baseada nas proteínas de origem animal, uma alimentação massificada que nos custa: i) as florestas, ii) contaminações por agrotóxicos (as monoculturas são contabilizadas nesses dois itens), iii) doenças crônicas, incluindo: obesidade, diabetes e hipertensão; iv) sofrimento animal (verdadeiras máquinas a serviço do ser humano), v) epidemias (H1N1, gripe aviária, entre outras) e pandemias.

 

Há outros inúmeros motivos e preocupações que poderíamos listar, e a literatura científica sobre saúde e meio ambiente está repleta de estudos que mostram a falência do modelo industrial de produção de proteína animal e de alimentos processados com suas respectivas cadeias produtivas que, com poucas exceções, não tem sustentabilidade para se manter. Ressaltamos a concentração de terras e desterritorialização de camponeses, povos indígenas e comunidades tradicionais, que passam a compor os bolsões de pobreza nas periferias das cidades.

 

Enfim, precisamos caminhar para um consumo alimentar mais sensível, olhando criticamente para as carnes, industrializados e alimentos cultivados com agrotóxicos, sobretudo em grandes áreas (monocultivos).

 

 foto: Marcel Carneiro

 

A Agroecologia tem trazido respostas para essa necessidade de consumir alimentos mais amigáveis ao ambiente e aos povos e comunidades do campo, com qualidade e valores nutricionais maiores, por ser uma forma de cultivo que, entre outras coisas, se preocupa em alimentar o solo e combinar diversas plantas, para produzir alimentos saudáveis, e que não necessitam de veneno para o combate de doenças.

 

O questionamento sobre produtividade dos cultivos agroecológicos e se são capazes de alimentar o mundo já não cabe mais, pois é sabido que a produtividade é muito superior à da agricultura industrial, além de empregar mais pessoas, e de poder alimentar mercados locais, com baixo custo de transporte.

 

A redução de emissões desta agricultura é notável, tanto pela redução de insumos, quanto pela conservação ambiental e por alimentar mercados próximos. Possibilita comercialização em cadeias curtas, eliminando (ou reduzindo) intermediários e empoderando as(os) produtoras(es). Além disso, se a agricultura familiar tivesse acesso aos investimentos que o agronegócio tem, seríamos outro país: mais próspero, ambientalmente mais equilibrado, com mais justiça social, abundância, equidade e saúde.

 

 

*1 Maluf et al. Nutrition-sensitive agriculture and the promotion of food and nutrition sovereignty and security in Brazil - Ciência & Saúde Coletiva, 20(8):2303-2312, 2015.

*2 Os textos citados podem ser encontrados nos links: http://agroecologiar.com/wp-content/uploads/2020/03/Marzo-18-2020- CELIA-agroecologia-y-COVID19-2.pdf e https://ricardoabramovay.blogosfera.uol.com.br/2020/04/07/o-que-sera-a-alimentacao-pos-covid-19/

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